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quarta-feira, 7 de março de 2012

Nicolás Farruggia - Entrevista Exclusiva.

fonte: www.cinemapossivelbrasil.blogspot.com


Criativo, pesquisador, perfeccionista e inquieto, Nicolás Farruggia deu uma grande alegria ao projeto Cinema Possível, ao aceitar o desafio de ceder um de seus temas musicais para a nossa primeira micro série. Mandamos a ele uma entrevista ao qual ele, generosamente, fala de sua rica formação musical e seus anseios artísticos. Vamos conhecer este artista.

O caminho de Nicolás Farruggia, em arte Nico, começa na Argentina, onde nem bem nasce e já começa a viajar, migrando com a família para a Itália (1981-82). Aqui começa desde pequeno a mexer com as artes fazendo do teatro, do violão e das artes plásticas seus brinquedos favoritos.
            
Aos dezoito anos parte para os Estados Unidos (2000-2004) e subseqüentemente para o Reino Unido (2005), perseguindo uma formação em violão erudito que culmina num Master in Performance na ambiciosa Royal Academy of Music de Londres. A pesar de tanta pompa, Nico se depara com a clara sensação de que aquele caminho iria lhe trazer talvez o prestigio mas com certeza não a felicidade.            

Seu primeiro projeto em formato voz e violão, "Matria" (2009) (http://www.jamendo.com/en/album/60579), está disponível para download gratuito; já seu disco mais recente, "Latinidade" (2012), reúne o batuque do samba chula do Recôncavo Baiano com toques de sabor cubano e a poesia cantada dos trovadores renascentistas com fanfarras em cores mediterrâneas. www.NicoLatinidade.com

Cinema Possível – Como foi que a música surgiu na tua vida?

Nicolás Farruggia - Quando tinha oito anos meus pais levaram a minha irmã Anabela de sete anos e a mim, para assistir um show de blues num teatro, em Milão, cidade onde crescemos. Como éramos as únicas crianças no teatro, o cantor que tocava uma guitarra tão preta quanto sua pele, nos chamou para subir ao palco na hora de encerrar o show. Guardo uma imagem muito vívida da minha irmã sorrindo no colo dele e de mim, maravilhado, com uma mão perdida naquela mão negra e enorme do astro e a outra segurando a paleta amarela que ele me deu e que tenha uma inscrição dourada que dizia: B.B. King. Saí daquele teatro transformado e, claro, pedi à minha mãe para fazer aula de vilão.
CP - Quando você - sente que uma obra está realmente concluída? Qual a sensação?

NF - Gosto de compor canções a partir da palavra, sejam versos preexistentes ou uma letra escrita para virar canção, meu desafio é descobrir a forma musical oculta no texto. Ao trabalhar um texto eu o leio em voz alta: o próprio ritmo do texto determina a cadência, o balanço da melodia, enquanto a respiração determina sua duração e o conteúdo seu caráter (se alegre, reflexivo, calmo, etc.). Dessa forma eu coloco a música a serviço da palavra, da poesia; já quando componho música instrumental a relação muda, pois nesses casos gosto de ficar mais livre para seguir o movimento da alma, da música em si ou de um certo sentimento que pede ser expressado sem palavras, de maneira mais intuitiva e direta.

Eu gosto muito de improviso, então para mim uma obra, uma composição, não chega realmente a um ponto de conclusão, ela está sempre aberta a novas reinterpretações e alterações, tanto do autor como dos possíveis interpretes - a não ser que ninguém  mais lembre dela; então aí sim, a obra acaba ou talvez se acaba com ela.


CP – Quais são os artistas que você aprecia musicalmente falando e o que você recomendaria para os leitores desta entrevista?

NF - Lembro uma entrevista do Eric Clapton onde lhe faziam a mesma pergunta e ele respondia: procurem saber que música ouvem os artistas que vocês mais gostam. Inspirado por ele eu digo aos leitores: ouçam e descubram os compositores que vossos artistas favoritos interpretam e gravam hoje em dia. Buscando dessa forma será possível ir gradualmente daquilo que é de fácil acesso - midiaticamente falando - àquilo que está mais escondido, até achar aquelas perolas que independem das exigências do mercado.

Em minha estadia na Bahia eu tive a oportunidade de conhecer e conviver com o compositor mais gravado de Maria Bethânia, autor de canções como Ya ya Massemba /letras-e-musicas/maria-bethania/ya-ya-massemba/1011549) ou Saudade dela /letras-e-musicas/maria-bethania-caetano-veloso-e-gilberto-gil/saudade-dela/2333178). Foi o Roberto Mendes, de Santo Amaro da Purificação, que me ensinou a compor da maneira que descrevi há pouco. Ele é um riquíssimo pesquisador de ritmos brasileiros, com um grande foco na cultura do recôncavo baiano, representada em sua síntese máxima no Samba Chula, uma variante do samba de roda. Recomendo dele o disco Cidade e Rio /album/roberto-mendes/cidade-e-rio/2316), lançado pela Biscoito Fino, e recomendo seguir ele nas redes sociais, pois está agora preparando um novo trabalho com a Fabiana Cozza e a Virginia Rodrigues que promete ser sensacional!

Outros artistas que ouço e admiro muito são o vocalista estadunidense Bobby McFerrin (Don't Worry be Happy) e Mercedes Sosa (Gracias a la Vida) ambos pela força e inspiração com a qual fazem uso desse instrumento deslumbrante que é a voz humana.

CP – Você já compôs pra cinema, TV, audiovisual? Como você gostaria de ver tua obra veiculada neste tipo de linguagem?

NF - Compus pouco para estas mídias e quero realizar mais trabalhos deste tipo. Acho a conjunção de música e imagem um meio muito poderoso para alcançar o publico. O ano passado compus a trilha para o curta A Floresta na Cidade (http://cinestesiafilmes.com/?p=194) dirigido por Fabio Assuf da Cinestesia Filmes e fiquei muito feliz com o processo e o resultado do trabalho.

CP – O teu clipe “Latinidade”, é interessante e surpreende como linguagem e tem uma tirada de humor, um ritmo caribenho mas também lembra algum tipo de batida européia. É isso? Não é isso? Fala da experiência com esta música e os desdobramentos decorrentes da experiência de fazer um clipe em Cuba.

NF - Esta música foi a primeira de uma dúzia de parcerias com Rudson Costa e é a composição que dá o nome ao disco, que irá sair no meio do ano. Para mim, ela representa a mistura que quero atingir com meu trabalho: uma levada latina, com a influencia rítmica das raízes africanas presentes no Brasil. A Europa está presente porque de lá vieram os colonizadores que trouxeram os ingredientes dos instrumentos de corda e da língua ao continente americano, mistura que deu no que é hoje a musica afro latina no mundo. Já no videoclipe eu brinco mais diretamente - por eu estar vestindo um fraque, símbolo do meu passado de instrumentista erudito - com esta herança européia.
Realizar um videoclipe em Havana é uma experiência deslumbrante. Realizar dois desses então, em somente dez dias, é muito excitante! Tudo isso foi possível graças ao entusiasmo e criatividade do diretor Alejandro Perez e de sua equipe de produção, que conseguiram filmar tudo em três dias. O segundo vídeo do qual falo é Soy loco por ti, America  homenagem ao Che Guevara composta por Gilberto Gil, com letra de Capinan, que resolvi gravar numa versão que começasse em ritmo de Samba Chula e fosse pouco a pouco se transmutando num “Son cubano”. Sabia, partindo de premissas teóricas, que esses dois ritmos eram sotaques diferentes de um mesmo povo africano, forçosamente enraizado em terras distantes, embora parecidas. Foi assim que gravamos. Com a direção musical de Leonardo Mendes - filho de Roberto - a primeira parte da canção, o samba, aqui no Brasil e a segunda, o “son”, nos históricos estúdios EGREM em Havana - onde foram gravados todos os discos do Buena Vista Social Club. A emocionante noite da gravação na EGREM ficou assim registrada nesse clipe.

CP – Como você vê o mercado para música hoje? Alguma coisa mudou? Há mais inclusão, a internet ajuda ou atrapalha?

NF - Tudo está mudando rapidamente e isso traz um grande alívio. Só não dá ainda para ver os resultados desta mudança em grande escala, pois as vantagens dos novos mecanismos de produção, divulgação e distribuição tem sucesso, embora de maneira bem vasta, principalmente em pequena escala e de maneira fragmentada. Outra razão é que a mídia tradicional junto com as gravadoras - as que ainda sobrevivem - continuam se comportando como se nada tivesse mudado, apontando o dedo para a pirataria, como se esse fosse o cerne da questão. O cerne é que ganhamos, como artistas, a liberdade de poder imprimir e distribuir mundialmente um disco a baixo custo e sem nem sequer precisar de CNPJ, ou de nos apoiarmos em discográfica ou editora alguma, fazendo uso das licenças de direitos autorais que mais achamos apropriadas às nossas necessidades (falo do Creative Commons ).

Equivalentemente, como público ganhamos a liberdade de pagar o preço que podemos e queremos (como no site www.bandcamp.com) na hora de baixar um disco inteiro, ou parte ou somente uma faixa isolada do nosso artista favorito - seja emergente ou estabelecido. Muitas vezes é o próprio artista que disponibiliza suas músicas de graça na internet, sabendo que seus fãs comprarão o ingresso de seu show, ficarão felizes de cantar na platéia as músicas aprendidas de cor e de graça, e ainda comprar o CD físico no final do show. Pois a música nasceu para libertar e celebrar, se elevando na emoção do momento. Bom, acho que me empolguei um pouco... mas é bem por aí (risos).

CP – Quem é Nicolás Farruggia por Nicolás Farruggia?

NF - Essa é difícil, viu.. mas vamos lá: Nicolás é... uma voz, um violão e um coração. O restante são variações sobre o mesmo tema. 



Confira o segundo capítulo da Micro Série
"SONHOS DE COR IZA" com música de
Nicolás Farruggia.

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