terça-feira, 25 de abril de 2017

A Cor da Pele - Adão Ventura


FAÇA SOL OU FAÇA TEMPESTADE

faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é cercado
por estes muros altos,

 currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.

faça sol
ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

PARA UM NEGRO

para um negro
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.

para um negro
a cor da pele
é uma faca
que atinge
muito mais em cheio
o coração.

EU, PÁSSARO PRETO

eu,
pássaro preto,
cicatrizo
queimaduras de ferro em brasa,
fecho o corpo de escravo fugido
e
monto guarda
na porta dos quilombos.

NEGRO FORRO

minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.
minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.

PRETO DE
ALMA BRANCA
LIGEIRAS
CONCEITUALIZAÇÕES


o preto de alma branca
e seu saco de capacho.

o preto de alma branca
e seus culhões de cachorro.

o preto de alma branca
e sua cor de camaleão.

o preto de alma branca
e o seu sujar na entrada.

o preto de alma branca
e o seu cagar na saída.

o preto de alma branca
e o seu sangue de barata.

cada vez mais distante
do corpo da Grande Mãe-África.


§

Agora

É hora
de amolar a foice
e cortar o pescoço do cão.

— Não deixar que ele rosne
nos quintais
da África.

É hora
de sair do gueto/eito
senzala
e vir para a sala
— nosso lugar é junto ao Sol.

§

Comensais

A minha pele negra
servida em fatias
em luxuosas mesas de jacarandá,
a senhores de punhos rendados
há 500 anos.

§

Limite

e quando a palavra
apodrece
num corredor
de sílabas ininteligíveis.

e quando a palavra
mofa
num canto-cárcere
do cansaço diário.

e quanto a palavra
assume o fosco
ou o incolor da hipocrisia.

e quando a palavra
é fuga
em sua própria armadilha.

e quando a palavra
é furada
em sua própria efígie.

a palavra
sem vestimenta,
nua,
desincorporada.

§


Das biografias (1)

em negro
teceram-me a pele.
enormes correntes
amarram-me ao tronco
de uma Nova África.

carrego comigo
a sombra de longos muros
tentando impedir
que meus pés
cheguem ao final
dos caminhos.

mas o meu sangue
está cada vez mais forte,
tão forte quanto as imensas pedras
que os meus avós carregaram
para edificar os palácios dos reis .

§

Encantamento

Você agora
é arco-íris
sol
de Três Barras
cristal
de São Gonçalo do Rio das Pedras
- Um caminhão transporta estrelas
do Pico do Itambé
- Um raio corta de fora a fora
os céus do Serro

§

Poemas da morte de um pai

                a José Ferreira dos Reis (1905 - 1988)

- Que cesse o barulho das enxadas,
das cantigas de eito
- que a madrinha da tropa
interrompa o curso
de seus passos
em territórios do Serro,
Santo Antônio do Itambé,
Baguari, Folha Larga,
Itapanhoacanga
e São Miguel & Almas de Guanhães.

E José,
novamente menino,
descalço, chapeuzinho de palha,
aguilhada na mão
a se encontrar
com seu Teodoro da Fazenda.

§


Zumbi

Eu-Zumbi
Rei de Palmares
tenho terreiros e tambores
e danço a dança do Sol.

Eu-Zumbi enfrento o vento
que ainda tarda
dessas cartas de alforria.

Eu-Zumbi jogo por terra
a caneta de ouro
de todas as Leis-Áureas.

Eu-Zumbi
Rei de Palmares
Tenho terreiros
e tambores
e danço a dança do Sol.



Adão Ventura Ferreira Reis nasceu em Santo Antonio do Itambé, Distrito do Serro, MG, em 1946. Advogado, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, autor de livros de poesia, sendo os primeiros: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul,(Belo Horizonte: Edições Oficina, 1970), As musculaturas do Arco do Triunfo (Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1976). Já participou de antologias poéticas em vários países. Teve um de seus poemas incluído na antologia Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, organizada por Italo Moriconi ( Editora Objetiva - SP).

sábado, 22 de abril de 2017

aline


aline

ainda que o tempo
não me traga o trago
daquele sacramento
em que estivemos juntos
quase dentro da fotografia
entrando no  meu olho
o movimento dos teus músculos
meus músculos nos teus lábios
algaravia exposta em nossa carne
como se uma faca já sangrasse o tempo
num futuro incerto pra nunca mais

Artur Gomes
foto.poesia






quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sarau Manguinhos Vive - A História do Brasil


Esse Tao de Descobrimento

Diz a lenda,  que Pedro Álvares Cabral,  saiu de Portugal com 3 Cara/Velas:  Santa Maria, Pinta e Nina, à caminho das Índias, em busca de especiarias: Cravo, Canela e Pimenta do Reino.
Diz a lenda que Cabral queria descobrir a Índia, mas quando chegou ao Brasil, foi que percebeu que os índios já haviam descoberto as índias.
Cara/Velas são movidas pelo vento, e me parece que nesse tempo o vento não estava muito católico pelos mares Atlânticos,  e então, se deu uma calmaria.
Sem vento, Santa Maria, Pinta e Nina se desviaram da rota, e num lance do acaso, ou no acaso do lance depois de navegar por um oceano nunca Dantes navegado, Cabral avistou o monte Paschoal.

ó My Brazil

ainda e alto mar Cabral quando te viu
foi logo gritando

: - Terra à Vista! -

e de bandeja te entregando
pra União Democrática Ruralista.

Quando Cabral e sua tropa de portugueses pisaram em terras brasileiras, tudo aqui era floresta rios mares manguezais caranguejos guaiamuns onça pintada milho verde mandioca. 

Na tropa de Cabral, havia um padre. rezaram missas trucidaram índios escravizaram africanos e deu-se então a mixegenação uma pátria descoberta um país em construção:

mas até hoje ainda procuramos
o Pau Brasil dessa Nação.

Projeto de Revitalização Cultural de Manguinhos
Coletivo Macunaíma de Cultura

Artur Gomes
FULINAÍMA MultiProjetos
portalfulinaima@gmail.com
www.fulinaimicas.blogspot.com

(22)99815-1266 - Whatsapp

apoio: 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sarau Manguinhos Vive - Dia 22 de Abril

Sarau Manguinhos Vive

Dia 22 de Abril - 18h
Programação: em Construção



ao batizarem-te
 deram-te o nome: puta
posto que a tua profissão
é abrir-te em camas
dar-te em
ferro
ouro
prata
rios
peixes
minas
mata
deixar que os abutres
devorem-te na carne
o derradeiro verme

salve-lindo pendão que balança
entre as pernas abertas da paz
tua nobre sifilítica herança dos rende-vouz
de impérios atrás

meu coração é tão hipócrita
que não janta
e mais imbecil que ainda canta:
ou
viram no Ipiranga
 às margens plácidas
uma bandeira arriada
num país que não levanta.

fosse o brazil mulher das amazonas
caminhasse passo a passo
disputasse mano a mano
guardasse a fauna e a flora
da fome dos tropicanos
ouvisse o lamentos dos peixes
jandaias araras e tucanos
não estaríamos assim
condicionados
aos restos do sub-humano

só desfraldando a bandeira tropicalha
é que a gente avacalha com as chaves dos mistérios
desta terra tão servil:



tirania sacanagem safadeza
tudo rima uma beleza
com a pátria mãe que nos pariu

bem no centro do universo
 te mando um beijo ó amada
enquanto arranco uma espada
do meu peito varonil
espanto todas as estrelas
dos berços do eternamente
pra que acorde toda esta gente
deste vasto céu de anil
pois enquanto dorme o gigante
esplêndido sono profundo
não vê que do outro mundo
robôs te enrabam ó mãe gentil!

telefonaram-me
avisando-me que vinhas
na noite uma estrela
ainda brigava contra
a escuridão
na rua sob patas
tombavam homens indefesos
esperei-te 20 anos
até hoje não vieste à minha porta
- foi u m puta golpe

o poeta estraçalha a bandeira
raia o sol marginal Quinta feira
na geléia geral brazileira
o céu de abril não é de anil
nem general é my Brazil

minha verde/amarela esperança
Portugal já vendeu para a França
é o coração latino balança
entre o mar de dólar do norte
e o chão dos cruzeiros do sul

o poeta esfrangalha a bandeira
raia o sol marginal Sexta feira
nesta porra estrangeira e azul
que a muito índio dizia:

meu coração marçal tupã
sangra tupi & rock in roll
meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê
maracatu boi bumbá
a veia de curumim
é coca cola e guaraná

o sonho rola no parque
o sangue ralo no tanque
nada a ver com tipo dark
muito menos com punk
meu vício letal é baiafro
com ódio mortal de yank

ó baby a coisa por aqui não mudou nada
embora sejam outras siglas no emblema
espada continua a ser espada
poema continua a ser poema

FULINAÍMA MultiProjetos
In Couro Cru & Carne Viva
portalfulinaima@gmail.com

(22)99815-1266 - Whatsapp

CAMPOS DOS GOYTACAZES

Quem sou eu

Minha foto
meu coração marçal tupã sangra tupi e rock and roll meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá samba jongo maculelê maracatu boi bumbá a veia de curumim é coca cola e guaraná